Bem Comer: O gosto do torresmo

Por João Moraes*
Há várias qualidades a se apreciar em um torresmo e muitos são os tipos desse manjar suíno. Torresmo de barriguinha, torresmo crocante com faixas de carne torrada, compridos feito pequenas ripas, torresmos só de pele e banha e os magnânimos torresmos estilo Babaloo, que têm por dentro aquela bolsinha de gordura líquida. São esses que nos escorrem pelos cantos da boca, deixando as laterais inferiores da face, por mais que se esfregue o guardanapo, com aquele tom lustrado e o indefectível aroma de chiqueiro junto ao bafo. Recomendo, neste caso, a ingestão imediata e atabalhoada de uma vigorosa pinga, de modo que esta também escorra pelos mesmos lugares, disfarçando o cheiro de gordura crua.
Mas o que há de melhor nesses cubinhos de porco fritos em bacias de banha não está nem na consistência, nem no formato e nem mesmo no manejo pela hora da ingestão; bom mesmo em um torresmo é a ocorrência de cabelos.
Um torresmo com cabelos traz ao fruidor culinário o encontro com a roça brasileira; é uma verdadeira pílula sertaneja esse acepipe etnográfico. Um torresmo cabeludo quase nos faz sentir a picada ardente da muriçoca ou mesmo o ataque sem tréguas de borrachudos aos nossos tornozelos.
Ah, como são comoventes os sabores do interior brasileiro!
Torresmos jamais deveriam ser servidos sem um bom chumaço de pêlos. Esses são os torresmos que costumamos chamar de pega-rapaz.
Há que se recomendar ainda que os bons torresmos só são verdadeiramente bem preparados e servidos quando confeccionados em botequins cujos donos tenham gatos no depósito de bebidas, perto do banheiro. O cheiro da urina felina combina com as tessituras e as fragrâncias do bom torresmo, tornando-o um manjar verdadeiramente incomparável.
*João Moraes é cineasta e personal gourmet da Zé Pereira.















