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sexta-feira, 11 de abril de 2008

Miséria transvestida de Liberdade - mais uma cena da nossa Tragédia Cultural!!


Por Pedro Paulo Rocha*

O poeta Wally Salomão atravessou o barracão em sua permanente teatralização de um Cinema Novo e do Tropicalismo, "a memória é uma ilha de edição", "máscaras, máscaras, precisamos da mentira essêncial", a poesia, o cinema, a poesia, a música, o cinema, o teatro, a poesia, tudo, o novo sem tempo, o povo por vir e o que virá depois do cinema, Glauber em raio de lampião, "o assunto é cinema, o assunto é cinema, o assunto é cinema", os poetas encarnados, loucos, profetas, Leão de Sete Cabeças, o barco no oriente mais próximo, nas águas inventivas da terra, do transe, "medra da miséria do mínimo tirar a possibilidade", o riverão passa lá onde o invisível devora um rio de luz, a próxima cena não será em sonho, mas "um furo no real onde passará uma reta infinita", um surrealismo concreto, de certo, um surrealismo do sul do qual você é a imaginação.

Atravesso labirintos da memória futura dessas cidades, devoro civilizações, idades, explodo vosso corações com furia e som, sou o grito dos barbarizados e sua descrucificação.

O filme será a ezstética da fome porque a fome é fome de tudo, fome de sonho, "passando por cima de todos, a fome universal sempre querendo arrasar tudo, o mundo inteiro a seu favor" porque "a fome tem a saúde de ferro, forte como quem come."

*

No terraço solar o pancinema permanente, quasi-cinema, kynorama, parangolé, evoé, os poetas alquimistas destilando seus sons e cores, insistem no movimento, na mistura, na alternância, no rio corrente das orlas e das marés: sobre imagem projetadas nas águas da Amazônia onde não há luz, só há som, dormem as mutações de novos cinemas, poesias, músicas, teatros arquiteturas.

O poeta na praia depois da morte canta seu poema de gozo e rir, tudo o que é cultura é merda, adubo essencial, o resto é o que não perdurará mais que uma vida. "o que é bom para o lixo é bom para poesia."

Vou ser devorado a cada carnaval , venham vamos a orgia final, a antropofagia dos guerreiros, a invenção de outra vida.

*

O absurdo não estava no filme, mas na realidade, o filme é que era a nossa realidade mais absurda refletida em nosso espelho estilhaçado. Um escritor no asilo meio padre metaforicamente sem materialidade, lê uns versos de outro poeta, seus olhos em fogo até perder a visão: "por fim a realidade prima/ e tão violenta que ao tentar apreendê-la toda imagem rebenta", esses versos entre-cortados no meio da seqüência seguinte para provocar diretamente tudo o que pode ser o cinema quando se faz da vida uma arte da transfiguração. Um personagem intelectual analfabeto em poesia, o outro é um democrata do capital fazendo graça e esfumaçando.


O palhaço mad in globo no deserto cinematográfico completamente tomado pela mesmice estética faz sua cena, a sua única cena fora da privada que geralmente o vejo - só podia falar merda, problema grave de alimentação em nossa mediocre digestão cultural que não compreende e não quer compreender o que é uma arte nova, porque simplesmente ignoram a importância da invenção que nasceu por esses trópicos nas décadas de 60 e 70. Querem datar, ridicularizar o que é a obra de uma infinita criatividade para os contemporâneos e para as gerações futuras.

A ignorância violenta do mercado não engana, articula no discurso e propaga o apartheid cultural e econômico, a ignorância não dá mole, vacilou eles mandam ver, mandam queimar, segregam, guetizam, soterram. A patrulha é justamente essa, eles invertem para poder exercer a censura a seu modo, jogo de cena, atravessam o quadro, trapaceiam como se fosse simples questão de opinião e não de censura a liberdade de criação artistica que o cinema do Glauber sempre sofreu. Tudo bem transvestido na velha babaquice, o gostei, não gostei, gostei não gostei… blablablá…

O absurdo de quem disse e as defesas de uma suposta liberdade de expressão contra a reação, o desagravo, é de deixar perplexo. (como se fosse uma censura ao que foi dito e não uma reação, uma liberdade legítima de quem ficou estarrecido com tal besteirol dos planetas com seus cassetas). Tudo isso só revela a intolerância cultural que nos cerca. Não importa o nome de quem, mas a manifestação já é por si só sintomática de um tipo de microfacismo de quem quer arrasar com tudo, queimar e barbarizar. Adoram defender a clamada diversidade cultural que tem se mostrado bem mais segregadora do que realmente múltipla, poli-diversa. Vomitam prepotentes uma diarréia ignorante de todos os nossos miserabilismo não reconhecidos; ignorantes da fome, narcisos e não orfeus, preparam mais uma vez o circo para a risada onipotente de suas merdas diárias pela TV e quando a cortina se abre, entram para tirar sua parte do banquete, "sim, soy um democrata, reformista das desigualdades!".

A questão não é de merda, mas da diarréia geral, ou diária, que advém da gula, da fartura desnutrida e não da fome, mas da gula dos comidos e da arrogância dos globais.

Mais uma gangue adentrou no palácio e tomou a meia lua que fica no planalto central e o globo mediterrâneo e os cinemas centrais, a tela e a plataforma do espaço. Uma vozover dos imperadores eletrônicos: "ora sou corrupto ora defendo a liberdade de expressão, posso ser vários personagens, ora faço pastelão ora sou intelectual, ora mando ver com o batalhão de choque, ora sou um travesti fantasiado de comediante que diz: I love money, I love ser um liberal, I love merda, me ama dizer tudo que pensa, eu sou mais um global dessa tragédia cultural."

*Pedro Paulo Rocha é cineasta e artista multimidia, filho de Glauber Rocha
Foto: cena do filme "Rocha que voa", de Eryk Rocha

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terça-feira, 25 de março de 2008

A verdadeira televisão de cachorro


Por Fernando "Viotti" Barreiros

O que aconteceu com a Sessão da Tarde? Antes, transmitiam apenas grandes clássicos, como Jerry Lewis, "Casablanca", "Cantando na chuva". Mas agora, com o nível elevado de emburrecimento da massa, a Globo precisou se adaptar ao novo nível de idiotice dos telespectadores. Então, para isso, mudou a programação da Sessão da Tarde, só vemos filmes de cachorro falante e papagaios cínicos. Qual é a grande de graça de a personagem principal ser um cachorro? "Hum, você não acha que esse pastor alemão lembra o Bogart?" ou então "Sim, sim, o filme só tem grandes astros, como Rex265, Fido537, Miuxa152". E é claro que todos os garotos que fazem os donos dos cachorros nos filmes já sabem que suas carreiras vão acabar quando as primeiras espinhas aparecerem em suas testas.
- O que você faz da vida?
- Eu? Ah, eu sou ator.
- Puxa, é mesmo? Que legal. Que filmes você fez?
- Eu fiz uma quadrilogia: "Bethoven", "Bethoven vai ao parque", "Bethoven na floresta" e "Bethoven sai de casa". Mas já estamos pensando em fazer "Bethoven quebra a perna e precisa ser sacrificado", para os mais velhos.

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terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Eu quero o meu Delorean!


Por Fernando Barreiros*
Ilustração: Zé José


Vocês, velhos de 40 anos, ficam se lamentando porque os anos 80, sua época de glória, seus anos dourados, acabaram. Ficam se lamentando porque o comunismo não deu certo, se lamentando porque nunca mais verão o Echo and The Bunnymen, se lamentando porque seus ídolos agora estão completamente loucos porque tomaram ácido demais ou porque ficaram chatos no início dos anos 90. Mas por acaso vocês já pensaram nos jovens que vivem nos anos 80 mesmo estando no século 21? Nós, os "pós-pós-punk", queremos viver nos malditos anos 80. Queremos ter vivido na época em que ser um niilista punk autodestrutivo que morre aos 27 por overdose de heroína era style. Achamos todas essas bandinhas novas uma merda, essa coisa de Blink, Fresno, MCR, uma grande merda. De bandas novas só gostamos daquelas que copiam alguma banda dos anos 80. Ouvimos B-52's, idolatramos Robert Smith, temos o cabelo igual ao do Ian McCulloch e do William Reid, usamos óculos escuros de noite, abominamos os anos 2000 assim como vocês faziam com os anos 90. Para nós, é que nem em "Trainspotting" quando ele está conversando com sua namorada de 14 anos e ela diz "Iggy Pop não está morto?" Só que nós sentimos isso todos os dias quando comentamos de alguma banda com alguém essa pessoa diz "Quem?". Então, seus velhos escrotos, tenham um pouco mais de respeito pelos mais jovens! Nós queremos os anos 80 tanto quanto vocês! Os anos 80 não são seus! Nós também podemos usar topetão new wave (claro que quando ficamos ao lado de nossos pais somos tachados de Mini Me)! Cadê meu Delorean pra poder ver Echo and The Bunnymen, porra!?

* Fernando Barreiros tem 14 anos e escreve no blog ilícito.

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quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Cesar Maia e outros males


Por João Cabral

Com muito otário na praça, a propaganda passa a ser a alma de qualquer negócio.

Cesar Maia sabe disso. Ou melhor, Cesar Maia só sabe isso e, mesmo não sabendo mais de coisa alguma, consegue se vender como algo que nunca foi, nunca será, enganando descaradamente. Isso seria problema dele apenas, não fosse o sucesso que obtém por motivos que não pretendo aqui esmiuçar.

Se alguém estiver disposto a olhar o que realmente é Cesar Maia, o que ele fez no passado, poderá entender perfeitamente o estado de absurdo abandono no qual se encontra o Rio de Janeiro. Afinal, o que é possível esperar de um prefeito que não sabe o que é matriz ideológica e que pertence a um partido que tem vergonha de suas matrizes ideológicas? A transformação de Cesar - de militante de esquerda que resistiu contra a ditadura em atual porta-voz do pensamento mais reacionário no Rio de Janeiro - não causa admiração. Cesar Maia sempre foi que é hoje. Ele apenas se enquadrou o melhor que pôde, tirou proveito das situações e assim foi se infiltrando para chegar até onde está agora. E que pare por aqui.

Vomitando irracionalidades políticas, análises vazias e orgulho jeca no seu ex-blog, o prefeito falastrão posa de homem antenado. Mas nem chega a isso. Escondido por essa parede de suposta inteligência está o político incapaz de fazer outra coisa a não ser falar. Não basta escrever sobre buracos, transporte público, saúde, política e economia. Para resolver os problemas é preciso FAZER alguma coisa. E Cesar não é capaz de fazer nem seu próprio blog, um boletim que é na verdade compilado pela JCM (Juventude Cesar Maia?) e sem assinatura formal. Quem já tentou usar os serviços virtuais da Prefeitura do Rio sabe que o prefeito entende tanto de computador quanto um camelo de bioquímica. Na Internet, a prefeitura é tão ineficiente e preconceituosa quanto a administração real. E o pior. Enquanto inúmeros órgãos públicos no Brasil e ao redor do mundo falam em adotar tecnologias baseadas em software livre, o Rio de Janeiro parece que nunca ouviu falar de tal coisa.

Tá na hora dessa cidade voltar a ser o lugar bacana que um dia já foi.

João Cabral é cineasta e escreve no blog Decrepitude Cesar Maia

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quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Venda a sua arte


Por Arthur Moura*

Há 20, 30 anos, os artistas tinham um enorme problema para vender sua música, cativar um público e se tornar "comercializável". Eles ficavam nas mãos das grandes gravadoras que dominavam o mercado fonográfico. Não existiam selos independentes, homestudios nem muita menos a Internet. Hoje, apesar do advento dessa enorme rede de contatos, o artista muitas vezes não sabe nem por onde começar. Dificuldades que se foram com o tempo ganharam uma nova roupagem a serem superadas. A indústria se tornou mais versátil, mas nem todos ainda conseguiram enxergar essa versatilidade e aliá-la com suas propostas. Há mercado para todos, do popular ao extremo experimentalismo. Ouvimos dizer que músico vive é de shows, pois ganhar dinheiro com a venda de CDs é muito difícil, e quando o assunto é ganhar dinheiro na Internet a imagem negativa da rede é a maior vilã da história. Não é de se assustar, pois a Internet apesar de ter um significativo aumento no número de usuários a cada ano que se passa, ainda é uma ferramenta nova e nem todos a tem realmente como uma verdadeira ferramenta que aliada ao trabalho pode ser motivo de grandes avanços nessa conquista.

Observam-se experiências feitas, como o caso da banda Radiohead (foto), que rompeu o contrato com a gravadora e decidiu seguir carreira independente. Agora lançam seus discos no site oficial onde disponibilizam o álbum completo. Lá tem opção que o fã pode pagar ou não qualquer valor para ter acesso a obra. Grande parte dos downloads realizados teve uma forma significativa de pagamento, mostrando que o público se sensibilizou com essa atitude. Existem outros exemplos, como alguns grupos de música experimental da Alemanha que decidiram fazer uma espécie de mapeamento dos fãs que acompanham a banda através de um site de cadastramento. Com isso descobriram que mesmo tendo um público relativamente pequeno, estes fãs sempre vão existir e dar apoio, sendo indo aos shows, comprando discos e até financiando novos projetos do grupo, impedindo a extinção do mesmo. Isso mostra algumas estratégias tomadas para se tentar reverter à crise atual, e até mesmo criar condições de sustento para o artista. Não existe uma fórmula mágica para se ter êxito nesse mercado, mas somente analisando a Internet como um fator aliado chega-se a infinitas possibilidades de se obter um bom resultado. A grande questão é: como usar bem essas ferramentas, como a Internet, o homestudio, os selos?

Muito se diz sobre a popularização dos homestudios, que se tornam cada vez mais baratos e acessíveis. Mas sabemos que apesar do surgimento de inúmeros equipamentos, dos preços e condições de pagamento estarem sempre se adaptando ao bolso do consumidor, esse barateamento ainda não é o suficiente para ser um fator que todos possam de fato tê-los em suas residências. O acesso a um estúdio caseiro dá uma liberdade infinita quando o assunto é produção. O artista passa a ter uma espécie de laboratório onde nascerão as obras. É como para um pintor ter o seu atelier. Diversos programas também surgiram para facilitar esse contato do músico com as técnicas de gravação, mixagem e masterização, tornando possível assim uma maior intimidade com todo o processo de criação.

Os selos, por sua vez, se tornaram um grande atrativo para o arista. É bom observar que cada selo oferece uma determinada função no mercado. Existem os que têm seu foco voltado para distribuição, outros para produção e alguns que não servem para nada também. Ter um selo é algo que pode ajudar o artista a ter resultados mais concretos, como uma boa produção do disco, a distribuição do mesmo, mais contatos e mais shows, divulgação na mídia, etc.

Tudo isso mostra que para se chegar a um nível aceitável no mercado, o músico precisa passar por várias fases que faz com que suas obras de fato estejam prontas a serem vinculadas para o consumo do público. Por isso há uma grande necessidade da valorização de todo esse processo produtivo, onde observamos que não basta simplesmente chegar num estúdio, gravar e "jogar" na Internet sem compromisso algum o material produzido. Pelo contrário, há todo um investimento, seja de caráter financeiro, espiritual, tecnológico, que faz da música e toda expressão artística um bem a ser preservado e valorizado. E para que esse ciclo não morra, é preciso que a comercialização da arte através da Internet seja algo de fato a ser consolidado e entendido como uma necessidade por todos aqueles, seja o público consumidor ou os que produzem, que desejam ter essa rede de contatos como aliada. A comercialização por essa via é consideravelmente mais barata e acessível que a atual venda que as grandes empresas dominadoras do mercado fonográfico impõem ao consumidor. Talvez more aí o alimento para outra indústria: a pirataria. Por isso devemos repensar em como viabilizar uma maior versatilidade nessa nova era, pois se a arte morrer aqui, a próxima não haverá.

*Arthur Moura é músico. Ouça aqui o seu novo disco.

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terça-feira, 11 de dezembro de 2007

E ainda tem a vista


Por Anna Azevedo

Na abertura do VI Araribóia Cine, em 23 de novembro, o secretário de Cultura de Niterói, André Diniz, anunciou que a prefeitura da cidade estuda o lançamento, em 2008, de um edital de apoio à produção cinematográfica.
"Puxa, finalmente" – pensei, cá com os meus botões niteroienses.

Niterói abriga aquela que durante décadas foi a única faculdade de cinema do Estado do Rio, e uma das raras do País, no Instituto de Artes e Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense, o Iacs, na rua Lara Vilela, no Ingá.

O curso de cinema da UFF, que ganhou fama por ter, em seus quadros, Nelson Pereira dos Santos, diretor de clássicos como "Rio, Zona Norte" e "O amuleto de Ogum" é celeiro por excelência de profissionais que fazem e pensam a sétima arte. Basta lembrar que a revista "ContraCampo" é projeto de ex-alunos da faculdade de cinema de Niterói.

A cidade, cinematográfica que só, poucas vezes é cenário de filmes. "A lira do delírio" (1978), de Walter Lima Jr., é exceção. Vez por outra a TV e o cinema utilizam a Fortaleza de Santa Cruz, em Jurujuba, como set isolado, como em "Gregório de Mattos" (2003), de Ana Carolina. E só!

Niterói ainda ganhou um conjunto de obras assinadas por Oscar Niemeyer e que se descortina para a Baía de Guanabara revelando ângulos inusitados e que levam ao êxtase diretores de fotografia em visita. Tem as praias oceânicas, os morros, as pedras, o Parque da Cidade (a vista mais bela da Guanabara), os bairros antigos, os botecos pés sujos de verdade, cada vez mais raros no Rio, as quitandas, as residências com ar de subúrbio antigo, o casario histórico, a sua faceta moderna em Icaraí, as mansões, as favelas, gente legal pelas ruas, mulheres lindas batendo perna na Moreira César, rapazes idem, as barcas, as colônias de pesca, o porto, o mercado de peixe, histórias e mais histórias, enfim, tá tudo ali, com menos burocracia das metrópoles e mais facilidade para se planejar e executar uma produção – espero eu! E a 13 quilômetros do Centro do Rio ou a sete minutos de aerobarco.
Mas mesmo assim, nada é filmado lá.

A não ser películas publicitárias que deitam e rolam com as possibilidades visuais do Museu de Arte Moderna (MAC), o disco voador pairado sob a Praia de Boa Viagem, assinado por Niemeyer.

Mesmo nos três governos de Jorge Roberto Silveira, o prefeito cinéfilo, ex-crítico de cinema, o político que ousou exibir "Napoleon", de Abel Gance, em tela tríplitica, com a Orquestra Sinfônica da UFF, no Ginásio do Caio Martins, nada foi feito em torno do tema: transformar Niterói num pólo de produção cinematográfica.

Se Ribeirão Preto, no interior paulista, agora também tem a sua Film Comission, por que Niterói não teria? Grana por grana, a indústria naval está injetando uns bons reais em Niterói, uma das cidades de maior poder aquisitivo e qualidade de vida do Brasil.

Em números: Niterói ocupa o 12º lugar entre as cem melhores cidades brasileiras para negócios. No setor de petróleo, segundo o Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP), 70% do parque instalado fluminense têm endereço na terra de Araribóia, desde empresas offshore a estaleiros. É o quarto PIB do Estado. Com esses indicadores, se não uma Film Comission, pelo menos o incentivo à produção audiovisual local...

E está aí o espanto maior: Niterói tem a Faculdade de Cinema da UFF. Todo ano, curtas são produzidos a duras penas pelos alunos que, sem grana, acabam fazendo de suas casa, de seus bairros, do jardim de seus vizinhos, os cenários de seus filmes para tudo ficar mais fácil, mais barato, mais simples. Como a maioria mora no Rio, os filmes da faculdade de Niterói acabam apresentando o Rio como cenário e rodam o País vendendo a imagem carioca. E não venham me dizer que o cinema não é um dos curingas da cadeia de turismo...

Isso me recorda o I Festival de Cinema de Belém, no Pará, em 2004. Não houve cineasta que, durante a estada na cidade, não tivesse tido vontade de filmar lá. Inclusive eu. Não se falava em outra coisa durante o festival inteiro: era um tal de diretor dizendo que teve uma idéia de um filme assim, outro assado, tudo filmado lá, na cidade das mangueiras e das pracinhas com seus coretos moldados na França, seu casario art-nouveau preservado, o Ver-o-peso, o Porto, o Parque Goeldi, o Círio de Nazaré etc etc etc.

Sendo assim, sempre me perguntei o porquê de a Prefeitura de Niterói não apoiar os filmes produzidos pelos alunos da UFF e outros, o que ajudaria – e como - a divulgar a cidade. Por que nunca se pensou num edital de apoio ao cinema numa cidade tão cinematográfica, com cenários prontinhos? Desta forma, películas poderiam ser filmadas parte, ou integralmente, na cidade, levando o nome de Niterói em seus créditos e a imagem da cidade na tela.

"Conceição", primeiro longa-metragem dos alunos da Federal Fluminense, rodou anos e anos em busca de apoio à finalização e nada! Na milésima tentativa junto à Riofilme, eis que a fita é lançada e teve boa repercussão na mídia. A Prefeitura de Niterói comeu mosca, pois todo mundo sabia que os "meninos" da UFF buscavam patrocínio para finalizar "Conceição", filmado em Niterói.

E educação e cultura, até onde se divulga, são pilares da Prefeitura de Niterói não é de hoje.

Finalmente chegamos ao fim de 2007 com o lançamento do selo Niterói Filmes, seja lá o que isto significa. E parece, vejam bem, "parece", segundo o secretário de Cultura, que vem aí um edital para documentários nos próximos meses.

Espero que o atual secretário de Cultura de Niterói não faça igual ao Ricardo Macieira, secretário das Culturas do Rio, que costuma subir ao palco do Festival do Rio para anunciar mundos e fundos jamais cumpridos. Entre eles, a volta do edital de curtas da Riofilme, que virou algo bissexto, trissexto, polissexto... sai quando dá na veneta do Prefeito. Uma pena!

Enquanto muitos estados possuem editais de apoio ao audiovisual, o Rio, a capital do cinema brasileiro, está a mingua. Ceará, São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Pernambuco, Distrito Federal, só pra citar alguns, estão aí, produzindo, produzindo com apoio dos editais públicos.

Tô achando que vai ter cineasta se mudando para o lado de lá (no meu caso, mais de cá do que de lá) da Baía de Guanabara no ano que vem...

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sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Dieta de mídia

Por Adriana Nolasco

Dieta de mídia: abra um buraco bem grande, enfie a cabeça e peça pra te avisarem quando a lei orgânica do município do Rio "pegar". Essa é bem radical e costuma ser contra-indicada pelos médicos.

Não leia jornal, ao menos esses que tão por aí, obviamente não compre o lixo editorial chamado levianamente de revista, com exceção da zé pereira, e coloque antolhos pra andar na rua.

Aos sábados quando o telefone tocar e você ouvir a doce voz do telemarketing, basta dizer que você não é você.

Pegue aquele móvel quadrado que chamam de televisão e, primeiro desligue, sua casa tem fontes de luz melhor, depois use a criatividade e a transforme, por exemplo, naquela mesinha de apoio que tava faltando no seu escritório.

Não responda e-mails e não responda imediatamente ao que te perguntam. De cara você vai parecer mais inteligente e logo depois você pode efetivamente ser inteligente, mas aí é contigo. Os relatos científicos afirmam apenas que assim suas idéiais ganham a liberdade de chegar sem pressa.

Pra evitar recaídas, volte a fazer amizade com seus livros. Experimente também chegar em casa e conversar com sua mulher, seu marido, seu cachorro, seu espelho. Escute os barulhos do prédio, observe que os passarinhos cantam sempre na mesma hora e teu vizinho trepa em média, uma vez por mês, mas isso porque ele não tá de dieta. Beba muita água.

Depois de uma semana são relatados alguns efeitos colaterais, mas não desanime, é assim mesmo. Clareza mental, senso crítico, senso de humor e sensibilidade alterada são alguns dos sintomas mencionados. Com o tempo você vai se sentindo melhor.

Quando completar trinta dias, reintroduza aos poucos os itens proibidos em sua dieta, mas vá com calma, costuma ser indigesto.

É sempre bom lembrar que o importante é promover uma reeducação, mas lembrando que foi justamente a educação que nos levou ao ponto que estamos agora, é melhor desconsiderar esse item. Grupos de ajuda costumam funcionar. Não se iluda, você é um viciado.

Por fim, antes de fazer qualquer coisa, lembra que você não tá num comercial de margarina, teu carro novo não vai fazer teu pau ficar duro e só te resta uma chance pra responder: o que é que eu quero fazer? Aí vai lá e faz.

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domingo, 30 de setembro de 2007

A segurança que a sociedade quer

Por Patrícia Rocha

O comandante-geral da PM, Ubiratan Ângelo, afirmou no debate sobre o "Tropa de elite" do jornal "O Globo", que a corrupção policial e a violência da corporação são as que a sociedade escolheu.

Tenho um amigo que teve seu carro roubado e passou a semana procurando por ele pelas delegacias. Quase uma semana depois, fizeram chegar até ele que o ladrão de seu carro havia sido preso e que ele poderia ter seu carro de volta pagando R$ 1.000,00 à polícia para que esta solte o ladrão, que, livre, devolveria então o carro para ele.

Meu amigo comprou seu carrinho recentemente. Ele é um batalhador e conseguiu comprá-lo por R$ 4.000,00. Não é o tipo de pessoa que consiga levantar R$ 1.000,00 com um estalar de dedos. Mora numa comunidade pobre (que inclusive já serviu de cativeiro quando eu sofri um seqüestro relâmpago). Está construindo sua casa lá há anos. Um brasileiro extremamente simples, honesto e esforçado e que agora está refém de um ladrão de carro e de uma polícia corrupta - 10 anos depois do ano em que acontece a história do "Tropa de elite". Será que meu amigo quer a corrupção policial e a violência da corporação como a sociedade a que o senhor Ubiratan Ângelo se refere?

O pai de uma amiga foi assassinado chegando em casa na região oceânica de niterói na noite de quinta-feira. Há três meses sua casa foi assaltada e levaram tudo. Seu pai não se mudou após a violência. Teoricamente os bandidos que realizaram o roubo estariam presos. Mas não existe mais certeza sobre esse fato. É possível que estejam soltos, quem sabe? Será que minha amiga quer a corrupção policial e a violência da corporação como a sociedade a que o senhor Ubiratan Ângelo se refere? Será que o pai da minha amiga fazia parte dessa sociedade?

Se meu amigo pagar pela saída do ladrão e pelo seu carro de volta estará conscientemente colocando um criminoso na rua. Se não pagar, ficará marcado e temerá a saída do sujeito - visto as relações cordiais com seus amigos policiais - que pode muito bem dar a ele um fim como teve o pai da minha amiga.

Ubiratan Ângelo afirma que "inexiste a corrupção sem a participação do servidor público e da sociedade". No caso do meu amigo, ele tem a opção "não participar?" e pagar (no sentido figurado) pra ver o que acontece?

Estou lendo sobre as torturas na época da ditadura e imagino o terror psicológico pelo qual passou quem viveu essa atrocidade. Acho que o sentimento não é muito diferente do que passam os cidadãos no Rio de Janeiro e região metropolitana hoje. Há um ano, perdi um amigo insubstituível num assalto a seu carro na zona norte num caso que ficou nacionalmente conhecido e a violência por lá não parece ter mudado depois disso, pelo que acompanho.

A repressão à violência no Rio tem seus reflexos na falta de segurança de Niterói e São Gonçalo e não existe nem a promessa de melhoria pro lado de lá da ponte. Não existe segurança e somos forçados a viver em estado de paz para não enlouquecer, mas vivemos a ditadura da corrupção e da violência. E toda vez que cada carioca, cada brasileiro for conivente com a corrupção e a violência (não só na esfera da relação com a polícia, mas) nos pequenos atos do seu dia a dia, estará dando argumentos ao inimigo num debate que na real não resolve nada e só prolonga a falta de atitude diante do estado de crise moral que este país vive.

Se não houver uma mudança substancial da corporação policial e da sociedade como um todo, continuaremos reféns - e ao mesmo tempo algozes (de nós mesmos) - nessa nova ditadura.

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sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Migalhas da corte


Por Adriana Nolasco

Mais um ISS que vai, mais projetos que ficam - a ver navios, numa homenagem ao tema do mencionado edital, os 200 anos da chegada da Corte Portuguesa ao Brasil, docemente imposto por nosso Czar para o Biênio 2007/2008. Cada povo tem o Czar que merece. Estamos falando do edital da Lei 1940/92 ou Lei Municipal de Incentivo à Cultura. Não quero chorar a clássica mágoa de quem não foi selecionado, mas meus projetos não foram selecionados mesmo. Minha produtora já aprovou dois projetos e conseguiu captar pra um que tá rolando no momento. As particularidades desse processo, também impagáveis por qualquer patrocínio, só vou poder expor quando acabar o filme, por motivos que vocês já devem imaginar.
Falar do edital do ano passado é chover no molhado, já que esse ano parece tudo reprise do Manoel Carlos. Aproveito então para tecer considerações sobre o ano corrente, já que a cada novo exercício fiscal chovem motivos, mas minguam os comentários. Há sempre ganhadores e perdedores, isso a gente já sabe, o problema é o critério que, nesse caso, parece ser o obscurantismo pleno.
Pra começar, poucos devem ter tido acesso a essa informação, mas nosso Czar, nos quarenta e cinco do segundo tempo, dias antes do fechamento da data limite do edital, liberou geral o tema dos projetos, antes obrigados a falar das coxinhas de D. João. A cada canetada do nosso prefeito, uma profusão de perguntas surge apressada. Na última hora? Por que? Alguém avisou? Segundo capítulo: no dia anterior à data estipulada para cadastramento dos patrocinadores no site indicado, os campos para preeenchimento do cadastro já estavam liberados, apesar do edital mencionar que só poderiam ser acessados no dia seguinte às 9h. O segredo é a alma do negócio. No dia seguinte às 9h: em menos de trinta segundos, tempo quase impossível para preencher o tal formulário, o dinheiro destinado à isenção fiscal já tinha acabado. Dessa vez nós produtores conseguimos articular uma mínima ação em conjunto e telefonemas choveram nos gabinetes municipais. Alguma coisa aconteceu: pediram desculpas, botaram a culpa no departamento de informática, marcaram nova data, publicaram de novo no DO. Após uma ano de trabalho duro formatando sonhos no mais novo modelo burocrático, não é um atrasinho à toa que vai demover nossa fé de desesperados.
Mas vamos aos resultados: and the Oscar goes to… Pros poucos projetos em vídeo e cinema, a glosa só fez aumentar. Pequenas merrecas distribuídas com parcimônia. Na área de artes plásticas um projeto chamado "Mulheres Reais", de R$ 2.000.000,00, quase nenhuma glosa. Imagino o Rio Sul embrulhado em banners gigantes com mulheres de verdade, preenchidas de botox e silicone. Interessante a arte contemporânea. Já ia me esquecendo: uma surpresa na área de cinema, um filme chamado "Polaróides Urbanas" da Filmes do Equador. Sabe quem é o diretor? Ele dirigiu "Império". Falar em impérios me leva a observar também que a maioria dos projetos continua sob a batuta da Corte portuguesa. Essa cidade tá realmente precisando revisar sua história.
Não preciso nem dizer que nenhum amigo e nem ao menos um conhecido foi selecionado. Pra não ser injusta fica a alegria de informar que a galera do Beco do Rato e do Cinemaneiro emplacaram uma das merrecas distribuídas. Mas o melhor é ver com os próprios olhos. Vai no site do Diário Oficial do Rio de Janeiro, escolhe o dia 20, clica em publicações a pedido, quando carregar a página volte duas atrás e ache o título "Comissão Carioca de Promoção Cultural". Dê um breve passeio e veja que em 2008 nós ouviremos muita música na igreja e nos CDs comemorativos dos 200 anos série I e II, saberemos ainda mais coisas sobre D. João e suas peripécias na casa de banho, na hora do chá, no Jardim Botânico, na chegada, na aclamação, conheceremos sua galeota, seus tesouros e até uma realeza virtual – inclusão digital é isso aí -, levaremos óperas no bolso, pularemos carnaval com as escolas de samba mirins ao som do samba da corte, veremos também as tais polaróides urbanas e conheceremos mulheres reais.
Promete ser um ano e tanto.

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segunda-feira, 3 de setembro de 2007

A cultura do privilégio

Por Alexandre Negreiros

É maravilhoso ver alguém se posicionar publicamente dessa forma, inflexível com seus ideais, como fez Zé Rodrix (ler texto abaixo). Em minha opinião, esse é talvez o mais importante papel do artista na sociedade. No entanto, há uma questão em sua forma de pensar que, a meu ver, embora demonstre um enorme sentimento cívico e público, é apresentado de forma um pouco equivocada. Um "imposto" é apenas uma das formas de arrecadação dos governos. É um dos tributos que, junto com as taxas (com destinação específica) e as contribuições de melhoria (provisórias e casuais), compõem a receita do estado. O tributo 'imposto', tem como característica a ausência de vínculos com qualquer despesa específica (ao contrário das taxas, a que correponde uma prestação de serviço específica), e existe como forma de custeio, simplesmente para sustentar a máquina estatal em todos os seus interesses, definidos então pelo governo empossado dentro dos limites e obrigações que nossa constituição estabelece. E a cultura é parte disso, há muitos anos.
Mas concordo com ele que verbas públicas prestam-se a atender ao público, e não a um grupo de privilegiados. Mas o apoio à cultura - como o da Lei Rouanet - é tão somente a materialização do reconhecimento de que, mesmo tão importante como o petróleo ou as sandálias havaianas, a cultura brasileira tem "macroeconomicamente" menos investimentos privados do que outros negócios, cujo retorno é menos "simbólico" e mais tangível, mais vendável ali na esquina. E se o governo não ajudar, acaba ou se reduz demais. E as regras da boa administração impõem que os aportes sejam concedidos a partir de certos critérios de habilitação que, abertos ao público - já que qualquer empresa pode candidatar-se a ser uma patrocinadora - vejo como um processo de seleção, e não de concessão de privilégios, à parte os desvios de conduta e outras ilicitudes.
Mas quando se oferece esse material ao público, no capítulo acesso, é notório o fracasso retumbante de nossas leis de incentivo. Se a verba é pública, não deveria haver lugares vagos, ou livro encalhado, ou CD esquecido na prateleira. A Lei não existe para manter produtores e artistas, mas sim a produção da cultura. O problema é que esta só se manterá caso (ainda) haja produtores e artistas, dirão alguns, mas ainda assim, a sobrevivência da classe, de seus profissionais, é outro capítulo, outra esfera de preocupação, e embora tão importante quanto, deve reportar-se a outros esforços. Talvez um "bolsa-produtor", um crédito especial do Banco do Brasil, um "bolsa-artista", ou qualquer bolsa que não seja Luis Vitton, do mais fino couro-de-platéia, conseguidas com ingressos estratosféricos com o qual se lucrou depois de que todos os custos e riscos foram repassados à teta-mestra governamental.
Se irresponsabilidades que premiaram Bengells e Fontes já não são toleradas, ainda há milhares de produções para ninguém, que nos cansamos de assistir em meio à garçons caçando moscas, sob o belíssimo logotipo da Petrobrás em neon, como foram alguns eventos do recente festival de música de cinema no Canecão. Não é só a divulgação que falta (embore jamais autorizaria o tema comunicação a se ausentar desse debate), mas o esforço da distribuição, que aponta para o outro galho do mesmo tronco onde saem as manifestações culturais: a educação. Não se permitem orçamentos sem verba para impostos trabalhistas, mas o compromisso que se exige com a circulação e o acesso é tísico. A liberdade de se estabelecer o valor do ingresso é necessária, mas deve se equilibrar com uma taxa de ocupação mínima, que pode ser solucionada com trabalho sério, leia-se: ingressos e ônibus na porta das escolas públicas, reduções no valor correspondentes às taxas de cadeiras vazias, faixas de preço atreladas à população de baixa renda, etc. Talvez essas bogagens que listei não sirvam, mas certamente criatividade não falta, e sim peito para enfrentar alguns produtores que, se já não se vêm em Nova York, sonham, esbarrando por aqui com a lição que faltou na implantação do capitalismo em nossas terras: ninguém sabe abaixar preços. Se você não viu, é porque não era sensível para detectar, inteligente para digerir ou digno de se esforçar por tanta genialidade e qualidade que, claro, têm seu preço.
Não acho que a Lei Rouanet privilegie os artistas, criadores e sua equipe porque viabiliza a produção deles. O que ela privilegia é a platéia de sempre, os únicos capazes de consumi-la. Mas no país em que o estacionamento de universidades públicas abriga carrões de filhos da iniciativa privada, a cultura não haveria de ser muito diferente. Embora ache que as coisas estão mudando, devagar, mas estão. Não abro mão de meu otimismo, com todo o spread bancário.


Nota da coluna Gente Boa ("O Globo", 29 de agosto):

O musical "O Rei Lagarto - Tributo a Jim Morrison" teve o orçamento de R$ 1,5 milhão aprovado pela Lei Rouanet e estréia em janeiro. O diretor é Luiz Carlos Maciel. Zé Rodrix faz a direção musical. "Jim Morrison é das figuras mais conhecidas dos anos 60. Jovens e coroas adoram os Doors", diz Maciel.

Carta de Zé Rodrix aos produtores do musical

"Acabo de descobrir exatamente nos detalhes desta notícia que não vou mais participar do projeto. Vocês conhecem a minha opinião sobre Renúncia Fiscal e Leis de Incentivo. Enquanto isto era um empreendimento privado, no máximo com os patrocínios e os apoios direitos de empresas que se associariam ao empreendimento, eu estava dentro. Infelizmente, ao entrar na jogada da Lei Rouanet, MiniCul etc., ele se torna impossível para mim.
Não acredito que o dinheiro de TODOS deva servir para patrocinar a aventura pessoal de ALGUNS, e, quando isto se configura, eu saio fora. Investimento deve ser feito com dinheiro real que não prejudique o essencial do país. Impostos devem ter fim específico, e o sustento da arte não é, a meu ver, uma destas essencialidades. Sempre fui um artista que não se privilegiou de nenhum tipo de ligação com estados e governos, em nome de minha própria liberdade. Assim sendo, há que haver em mim algum respeito pelas coisas em que eu acredito. Se entrar nisto, estarei negando tudo que é a minha maneira de ser, pensar e agir. No Brasil de hoje, precisamos de investidores conscientes, e não, segundo minha maneira de ver a realidade, de utilizar de maneira equivocada o dinheiro público.
Desejo ao pessoal da produção o máximo de sorte e sucesso possíveis, e sei que serão muito felizes, graças à qualidade artística de todos os envolvidos."

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terça-feira, 24 de julho de 2007

"Chão forrado"


Paulo Henrique Souto*



“O sonho do diretor é ter o chão forrado de espectadores, ocupando as cadeiras e sentados no chão das salas de exibição”. Esta pérola foi soprada em meu ouvido por Humberto Mauro (1897-1983), com seu bom humor, na exibição do filme “A noiva da cidade”, de Alex Vianny, em Volta Grande (MG), nos idos de 1980, vendo o chão da fábrica de tecidos desativada, forrado de gente, assistindo à sessão.
Há mais de 20 anos minha batalha — e prazeroso oficio — é tentar pôr nos jornais e que tais notícias dos filmes brasileiros — nada a reclamar dos coleginhas da imprensa, sempre conseguem um espaço. Ultimamente, porém, sinto-me frustrado com o resultado do trabalho. O motivo: os filmes, grande maioria, entram em uma única sala e, pior, em horário picotado, como um pedaço de carne. É cruel, só se tiver sorte será um filé, e entra em horário que o público vai ao cinema; muitos entram nos piores horários, aquela hora que poucos privilegiados têm tempo disponível. É aí que mora o perigo, pois não dá chance de formar o boca a boca — o cara que vai fala para o outro ir, isso ajuda manter o filme em cartaz. E se não for visto na primeira semana de exibição, simplesmente tiram de o filme de cartaz. O critério é matemático (?) — espero que seja levado em conta o horário da exibição, será? Minha frustração é que nessa primeira semana ainda tem matérias nos jornais, nos sites, programas de TV, revistas de variedades, ou seja, o filme ainda está na mídia. O público vê as matérias, se interessa, vai procurar o filme no cinema, e cadê? Já saiu de cartaz. Cinema com diversos horários é invenção nova, produto da globalização, ou talvez da diminuição das salas. Mas é algo que, no meu entender, precisa ser revisto urgente, caso contrário o público vai procurar o mais fácil, o filme das sessões continuas. E o bom do cinema brasileiro vai morrer na praia, sem fôlego, aplaudido e premiado somente em festivais país afora... Saudades do grande Humberto Mauro, fazia seu cinema cachoeira, e gostava de ter o “chão forrado de gente”.
E quem não gosta? Viva o cinema brasileiro!



*Paulo Henrique Souto, formado em Comunicação Social, é assessor de imprensa, cineasta (dirigiu “Aníbal um carroceiro e seus marujos), produtor-executivo (“Cabaret Mineiro” e “Rio de Jano”) e ator.

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